Publicado na quinta edição da revista serrote, o texto abaixo, de autoria do poeta Antonio Cicero, é parte da palestra proferida em abril de 2010 na sede do Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, por ocasião da entrega de medalhas da Ordem do Desassossego, instituída pela Casa Fernando Pessoa. Na ocasião, foram homenageadas a cantora Maria Bethânia e a professora de literatura Cleonice Berardinelli. Neste trecho, Cicero trata do livro Mensagem.
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Fernando Pessoa é não só um dos maiores poetas modernos, mas um dos maiores poetas da modernidade, ou seja, um dos poetas que mais intensamente experimentaram e mais longe levaram a experiência tanto das possibilidades quanto do desencanto do mundo moderno. Não que ele esteja próximo das modas ou veleidades contemporâneas ou das ideias deste ou daquele teórico em voga, nem que tenha antecipado as teses deste ou daquele maître à penser. A modernidade a que me refiro não se confunde com a mera contemporaneidade.[1] Deixemos de lado nosso provincianismo temporal. A modernidade consiste em primeiro lugar na época da desprovincianização do mundo: aquela que, do ponto de vista temporal, abre-se com o humanismo que, voltando os olhos para o mundo clássico, relativiza o mundo contemporâneo; e que, do ponto de vista espacial, abre-se com as descobertas geográficas, celebradas, como se sabe, pelo próprio poeta de Mensagem, quando diz, por exemplo, no altíssimo poema “O infante”, inspirado em d. Henrique, o Navegador:
Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até o fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
Cometendo um sacrilégio, interrompo o poema para exclamar: que imagem, essa! “A terra inteira, de repente,/ Surgir, redonda, do azul profundo”: do azul profundo do mar, como o sol ou a lua surgem às vezes do mar. Mas o sol ou a lua surgem do mar para os nossos olhos. A terra surge redonda do mar para a nossa inteligência, porque as navegações a revelam efetivamente redonda. E os sentidos e a inteligência se confundem nessa imagem.
Mas continuo:
Quem te sagrou criou-te portugues.
Do mar e nos em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Imperio se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal! [2]
Essa descoberta da terra inteira relativiza a Europa. O processo de desprovincianização ou de cosmopolitização que produziu o mundo moderno não se restringiu às descobertas dos humanistas e dos navegadores, pois também incluiu explorações científicas, artísticas, técnicas etc. Ora, a abertura de novos horizontes tornou também possível a compreensão do caráter limitado dos antigos horizontes. As ideias e as crenças tradicionais puderam ser postas em questão, quando não simplesmente desmentidas. Os valores, as formas e os procedimentos tradicionais puderam ser relativizados, quando não simplesmente abandonados.
Uma antiga tradição diz que o nome de Lisboa vem de Ulisses: Ulixes, Ulixbona, Lissabona, Lisboa. Em alemão diz-se ainda Lissabon para Lisboa. O fato é que o poema “Ulisses”, do já citado Mensagem, celebra essa tradição:
O mito e o nada que e tudo.
O mesmo sol que abre os céus
E um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por nao ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por nao ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecunda-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre. [3]
Não é por acaso que Pessoa retoma o mito de Ulisses e sua lendária fundação de Lisboa. Seu Portugal representa o mais alto destino, não tanto da Grécia, da Europa ou do Ocidente em particular, mas, no fundo, de todos esses e mais, isto é, o destino do mundo moderno. “A arte portuguesa”, diz ele em “Ultimatum e páginas de sociologia política”, “será aquela em que a Europa (entendendo por Europa principalmente a Grécia antiga e o universo inteiro) se mire e se reconheça sem lembrar do espelho”.
Ulisses remete ao passado mítico, e este se projeta para o futuro. E Ulisses remete também à modernidade, pois ele pode ser – e tem sido – considerado o primeiro personagem mítico moderno.
(...)
(...) Fernando Pessoa é (...) moderno num sentido ainda mais profundo, também prefigurado por Ulisses, quando este diz ao cíclope Polifemo chamar-se Oútis, isto é, “Ninguém”. Refiro-me ao que se pode chamar de a moderna cisão da subjetividade. Creio que o melhor meio de explicar o que significa essa cisão é mostrar o caminho pelo qual o autor de Mensagem a alcançou. Como se sabe, a filosofia moderna se formou a partir do ceticismo mais radical que se pode imaginar: a dúvida hiperbólica ou exagerada de Descartes, segundo a qual é possível que absolutamente tudo o que pensamos saber não tenha consistência maior que a de sonhos, alucinações, ataques de loucura, encantamentos provocados por gênios maus etc. Com razão, Alexandre Koyré afirmou que essa dúvida foi “a mais tremenda máquina de guerra – guerra contra a autoridade e a tradição – que o homem jamais possuiu”.[4]
NOTAS
[1]. Ver “O agoral”, in: Antonio Cicero, O mundo desde o fim. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2009.
[2] Fernando Pessoa, “Mensagem”, in: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986, p. 78.
[3] Ibidem, p. 72.
[4] Alexandre Koyre, Entretiens sur Descartes. Nova York Paris: Brentano’s, 1944.