Escrito por Rachel de Queiroz (1910-2003), o texto abaixo é um testemunho sobre a concepção de seu romance O quinze, que publicou em 1930 e completa 80 anos em agosto de 2010. Também é reproduzido, paralelamente ao texto, o fac-símile da versão original desse artigo com emendas e notações da autora, cujo acervo é preservado pelo IMS (clique aqui para mais informações). Clique aqui para comprar edição dos CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA dedicado à escritora.

Por se tratar de uma das obras mais importantes do regionalismo brasileiro, mais especificamente da chamada “literatura da seca”, O quinze foi tema de variados trabalhos acadêmicos e ensaios, como “O sertão em surdina”, de autoria do professor e crítico Davi Arrigucci Jr. Esse texto integra a coletânea O guardador de segredos, lançada pela Companhia das Letras. Clique aqui para ler esse texto, gentilmente cedido pelo autor e a editora. Clique aqui para adquirir e saber mais sobre o livro.

 

 

Como foi escrito “O Quinze” [1]

Rachel de Queiroz

 

Menina sertaneja, as histórias de seca eram uma realidade constante no ambiente da fazenda: as fundas lembranças das tragédias do Setenta e Sete, do Três Oito (1888), do Nove­centos. Muitas testemunhas ainda havia de todos esses pe­ríodos de flagelo, que contavam as misérias da gente e do gado, as retiradas para a serra, para “a rua”, o mergulho no escuro que era a fuga para a Amazônia. Com aquela secura de linguagem, a ausência de dramatização, a límpida enume­ração dos sucessos que caracterizam a narrativa sertaneja — e que eu decerto inconscientemente imitei, num despojamento que se fez mais tarde uma das características mais assinala­das do livrinho.

 

Por ocasião da seca de 1915, eu tinha quatro anos — nas­cida que era em novembro de 1910. Passamo-la em Fortaleza, numa chácara que meu pai comprara recém, no antigo Alagadiço — larguíssima rua de areia, tendo apenas no espinhaço o estreito calçamento onde corria a linha do bonde. Nessa casa de imenso quintal, cheio de bananeiras, goiabeiras, cata-vento, fica hoje a Casa de Saúde São Gerardo, e a rua é a Avenida Bezerra de Menezes. Pelos confins do mesmo Alagadiço o go­verno fez em 15 abrir o chamado “Campo de Concentração”, cercado de arame e sombreado por cajueiros, onde se arranchavam e recebiam socorros os retirantes vindos em tal quan­tidade, que edifício público nenhum os abrigaria.

 

Desse campo me recordo vagamente — a cerca, os acam­pamentos feitos de ciganos, fogo aceso sob as árvores, latas co­zinhando nas trempes. Eu ia lá frequentemente com minha avó, minha mãe, minhas tias, levar ajuda aos flagelados (pa­rece que os jornais achavam feia a palavra “retirante”, e en­tão o chique era chamar retirante de flagelado).

 

Quanto à seca de 1919, nós a passamos no Pará; já maior e mais atenta ao mundo, tive notícia dela através de meu pai que era um dos “comissários” da colônia cearense em Belém, organizada para a acolhida e ajuda aos retirantes re­cém-chegados.

 

Isto conto para explicar que, ao escrever o livrinho, eu nunca vira uma seca com os meus próprios olhos. Mas a tra­dição local era tão forte, a lembrança em todos tão presente, os relatos repetidos com tanta frequência, as referências lo­cais tão cotidianas: (… “aqui no meio do açude, onde agora dá duas braças d'água, foi que o povo cavou a cacimba, no “Quinze”, “este rebolado de mandacaru não sei como esca­pou, foi cortado até à raiz, no Dezenove”… “esse menino véio é assim movido porque nasceu na seca, coitado…”). E, para saber a paisagem, a gente tinha o verão, os meses que vão de julho a fevereiro ou março, durante os quais tudo seca, da vegetação às águas; a seca, afinal, não é muito mais do que um verão duplicado.

 

 

Isso quanto ao tema e ao cenário; agora a autora:

 

Desde os dezesseis anos que eu fazia jornalismo, em O Ceará, de Júlio Ibiapina, A Jandaia, de Aldo Prado, em um efêmero Maracajá, revista modernista, e afinal em O Povo, de Demócrito Rocha. Já me atrevera mesmo a uma noveleta, muito artificial, muito pretensiosa que Demócrito fizera publi­car em folhetim. Pensava num romance, mas não queria fazer a simples história de amor que os meus dezoito anos pediam, queria nele também a terra, a gente do Ceará. Via que o meu caminho tinha que ser o mesmo, a literatura da seca, embora já trilhada por tantos — Domingos Olímpio, Rodolfo Teófilo, entre muitos —, seca inclusive cantada por Guerra Junqueiro, poema de que meu pai repetia sempre uns versos em que o retirante pedia esmola “na mesma língua em que a pediu Camões”. Mas eu queria a minha seca mais “seca” — quero dizer menos formalmente trágica — sem muitos cadáveres, muitos esqueletos, muitos urubus, como era o tom realista até então.

 

Pelos meados de 29 comecei a escrever o livrinho. De noite, no casarão novo do Pici, onde morávamos então (essa casa, desmembrada do velho sítio que foi loteado, ainda existe); ainda não chegara lá a luz elétrica e eu costumava escrever à noite, a lápis, num caderno escolar. Minha mãe, que tinha medo de me ver doente, perseguia minhas noitadas em claro e me mandava apagar ainda cedo a luz do quarto. E eu então esperava que a casa adormecesse e ia para a sala da frente, onde um lampião de querosene ficava aceso, posto no chão. Estirada de bruços no soalho, diante da luz, eu então escrevia; parecia-me que a criação literária só poderia ser feita assim, no mistério noturno, longe do testemunho e dos comentários da casa ruidosa cheia de irmãos.

 

Assim, a lápis, foi tudo escrito, já na sua forma quase definitiva; depois eu própria o passei a limpo (um “limpo” muito relativo porque a datilografa era e ainda é ruim, e a máquina era péssima) numa velha e minúscula “Corona” que meu pai trocara com Frei Leopoldo Plass, amigo querido nosso.

 

 

Só depois de copiado à máquina mostrei o livro a minha mãe e a meu pai. Não me lembro de muitos ou nenhuns lou­vores deles — nem mesmo surpresa — afinal, a minha mis­teriosa labuta noturna não deveria ter passado tão desperce­bida assim. O que recordo é que entramos logo em tratativas para a edição — não cogitamos sequer de um editor propria­mente dito — o caso era arranjar tipografia, saber o preço e fazer o livro — se desse. A tipografia Urânia nos pediu onze mil réis por página e os mil exemplares da tiragem saíram por dois contos de réis. Mestre Camarão, ruivo e alto, se en­carregou do trabalho gráfico, revisão, inclusive. O pintor Ger­son Faria, grande amigo de Alba Frota (outro no segredo e nosso amigo, que nos fizera a graça de pintar uma barra de paisagens na sala de jantar e uma decoração de pássaros e folhagens de violência amazônica no meu quarto), se encar­regou de fazer a capa. Que aliás eu detestei (o que só hoje confesso), mas que não tive a coragem de recusar. O trato da edição foi feito em começos de 1930; por julho estava o livro pronto. Antônio Sales, meu mestre, meu amigo e meu guru, me orientou quanto às pessoas aqui do Rio para quem deveria mandar o romance (entre elas Graça Aranha). Beni Car­valho, Renato Viana, também sugeriram outros nomes. Eu própria tinha os meus, entre eles Augusto Frederico Schmidt, editor do jornal Novidades Literárias, que foi o primeiro a dar o brado no Rio. Graça Aranha foi outro; em São Paulo, Artur Mota. Herman Lima, na Bahia. Mas em Fortaleza a recepção foi fria e, da parte de alguns, até hostil. Teve quem dissesse que o real autor do romance não era eu, mas meu pai. Mário de Andrade (o que se assinava “o do Norte”) escreveu metendo o pau, inclusive no papel de impressão da gráfica Urânia, o qual na verdade não era lá essas coisas.

 

Depois veio o prêmio da Fundação Graça Aranha, a bo­nita segunda edição da Editora Nacional. Mas isso já é outra história.

 

NOTA

[1] Publicado em: Revista da Academia Cearense de Letras, Ceará, 1976, n. 37, pp. 59-62.