O texto abaixo é de autoria de Noah Khoshbin e Matthew Shattuck, curadores da mostra Video portraits de Robert Wilson, em cartaz no IMS-RJ de 16/2 a 15/5/11.
Video portraits de Robert Wilson: depoimento dos curadores para o ims
A única maneira de realmente vivenciar o teatro é estar fisicamente em um dos dois lados do palco, ou participar de uma forma de teatro mais interativa, em que o palco tenha sido inteiramente dispensado. Se tal afirmação é considerada um truísmo, então que espécie de legado um artista de teatro pode deixar para futuras audiências? Vídeo, cinema e fotografia são opções para documentar uma performance, mas raramente chegam perto da experiência tridimensional: o modo como os sons se irradiam por um teatro, como a luz envolve uma mão, a expectativa do público, o gesto sutil de um ator.
Robert Wilson é um dos raros artistas que transitam pelos meios artísticos sem se agarrar a um método de criação. Seu processo criativo vai além de um único meio e, ao contrário, encontra expressão tanto no arquétipo de uma ópera, na arquitetura de um edifício, nas manchas de uma aquarela, no desenho de uma cadeira, na coreografia de uma dança, no ritmo de um soneto ou na dinâmica múltipla que se revela em um video portrait.
A arte de Wilson sempre começa com uma pilha de papéis em branco, um lápis e silêncio. Então ele esboça suas ideias, ao mesmo tempo em que consulta materiais de referência, que podem ser qualquer coisa: diretos, como um manuscrito histórico, ou indiretos, como uma fotografia encontrada. Ele se aproxima dos materiais de referência com espírito aberto, mas nunca tem medo de abandonar o que parece ser um grande ponto de partida em favor de um gato emboscando um rato, um galho de árvore caído no meio da rua ou qualquer outro fato cotidiano semelhante que brote de um mundo sem molduras. Para Wilson, tudo é igual e tudo tem valor, porque mesmo o ordinário pode ser emoldurado como extraordinário por sua simplicidade.
Ao incorporar uma variedade de elementos criativos – iluminação, figurino, maquiagem, coreografia, gestual, texto, voz, cenografia e narrativa –, os video portraits funcionam como uma síntese completa de todas as mídias no domínio da produção artística de Wilson. A tela para pintura ou uma tela de alta definição (HD) são uma coisa só, combinando os aspectos ambientais e espaciais de um palco com uma nova sensibilidade sob a direção de Wilson. O meio é o vídeo de alta definição, mas a forma funde a cinematografia de natureza temporal com o momento congelado da fotografia still. No processo criativo “em camadas” de Wilson, os video portraits absorvem referências encontradas na pintura, escultura, desenho, arquitetura, dança, teatro, fotografia, televisão, cinema e na cultura contemporânea. O resultado final no monitor de alta definição se parece com uma fotografia, mas um olhar mais atento revela a linguagem teatral altamente desenvolvida de Wilson aliada à incrível precisão e clareza do vídeo de alta definição.
O video portrait da princesa Caroline de Mônaco é um bom exemplo de como histórias, imagens e um conjunto de ideias são incorporados para construir um único retrato. O ponto de partida para esse retrato foi a mãe de Caroline, Grace Kelly, e sua personagem Lisa Fremont em Janela indiscreta, clássico de Alfred Hitchcock de 1954. Em um momento central do filme, Lisa descobre uma aliança desaparecida que é uma pista substancial para um assassinato e sinaliza o fato para seu namorado, o fotógrafo/voyeur L.B. “Jeff” Jeffries, interpretado por Jimmy Stewart. A aliança perdida como um sinal do amor perdido entre marido e mulher, nesse caso também de assassinato, e, ao mesmo tempo, uma indicação do futuro elo entre Lisa e Jeff, é puro Hitchcock. A apropriação desse gesto por Wilson e a síntese com a Madame X, de John Singer Sargent, que por ser uma mulher da sociedade também tem reflexos na personagem Lisa Fremont, e seu gesto marcante reúnem duas formas de arte e história de um modo poderoso. As sequências em que a luz vai revelando as mãos/o anel, o braço e o rosto ou só a silhueta negra parecem ao mesmo tempo clássicas e tribais, oscilando entre o retrato e a paisagem, refletindo tanto Sargent quanto Hitchcock. Com a trilha-sonora de Bernard Herrmann para Um corpo que cai, o resultado é um Wilson seminal.
A resposta extremamente positiva à exibição dos video portraits se deve à sua cativante originalidade, mas também à essência mais popular que ela emana: uma criança consegue apreciar um retrato com tanta atenção quanto um acadêmico; uma pessoa paciente consegue aproveitar tanto quanto uma impaciente. Também vale a pena considerar a afirmação de Andy Warhol: “Se há movimento, as pessoas assistirão” – um comentário a respeito do cérebro dos répteis e que explica por que a imagem em movimento tem tamanho poder na sociedade atual – tente se sentar em uma sala com uma televisão ligada e não ser atraído por ela. Embora a afirmação de Warhol seja um pensamento convincente, as pessoas parecem ser atraídas pelos video portraits de Wilson porque eles atiçam a imaginação e a curiosidade, e isso é o que transcende idade, raça, educação, política e outras diferenças semelhantes. Dada a variedade de mídias com que Wilson trabalha, os video portraits acabaram sendo um projeto definidor porque ele encarna todas as linguagens do artista em uma mídia atemporal, que pode ser vivenciada hoje da mesma forma como será amanhã.